sábado, 8 de janeiro de 2011

A ESCURIDÃO




Ele vinha caminhando, ou talvez rastejando, estava tão escuro que era impossível saber. A escuridão já o havia consumido, o frio entrava por suas mãos, endurecia seus músculos, gelava sua alma. A aflição inicial já não era mais percebida, estava anestesiado, apenas a esperar o fim. Já não havia mais solução, o tempo já não fazia mais sentido, como um zumbi vivia , se alimentando de ilusões, decepções, choro, raiva, ódio... todas as noites, o senhor da escuridão vinha conferir, como as coisas iam, não era necessário acorrentar seu prisioneiro, mais um na multidão de bichinhos de estimação ( era como ele chamava seus prisioneiros ), eles mesmo se prendiam em suas cadeias, quase que se enforcavam " sem querer ", o choro dominava o local.
Os dias iam passando, na verdade, eram somente noites, o sol nunca nascia, o dia não existia, o martírio continuava, o lugar cheirava morte, loucura, ele já não sabia mais se estava cego, ou se era somente a escuridão, o gosto do féu na boca, o remorso que o acompanhava...
A esperança terminara, nem vivo ao certo ele sabia se estava, e aquilo que ele fazia não se podia ser chamado de viver, só lhe restava a vaidade, a inveja, o rancor... seu coração não batia mais, já estava endurecido, seus ouvidos ele preferiria arrancar a continuar a ouvir todos os sons tão horrendos que me recuso a reproduzi-los aqui.
A unica faísca de vida ainda presente em seu corpo era uma lembrança, mesmo que vaga, de algo que ele não sabia ao certo, talvez um mito, uma lenda, de alguém que poderia ajudá-lo, quem sabe dar-lhe um cobertor para se aquecer, um pouco de amor para ele comer, mas o que queria mesmo, o único sonho que possuía, era raro, mas era, de que esse alguém pudesse ao menos por mais uma vez mostrar-lhe uma luz, se ele já estivesse cego. Enquanto essas sensações preenchiam o último espaço ainda vivo de seu coração, ele reuniu todas suas forças, e gritou com todos seus pulmões: ME AJUDA!!!!
Talvez tenha soado como um suspiro, mas para ele foi como um rugido, tão forte, que desmaiou em seguida. Então começou a recuperar seus sentidos, aos poucos, e ele já não sabia se eram alucinações por causa do desmaio, ou se realmente havia uma luz, um pingo de luz. Ele continuou olhando fixo para aquele ponto, que surpreendentemente parecia aumentar, bem lentamente, e o ponto já virara uma mancha, que se transformava em um borrão que vinha quebrando a escuridão, cada vez mais rápido. Era uma luz diferente de todas as que ele via antes, era infinitamente mais brilhante, hipnotizante, era impossível não ser atraído por ela, que se aproximava, ele com medo de não conseguir olhar mais pra ela, pensa em cobrir seus olhos, mas não tem coragem, e quanto mais perto estava, mais ele se impressionava, a luz não incomodava, na verdade ele começava a se sentir quente, era como a vida entrando em seu corpo novamente, já era possível ver todos machucados, feridas, sujeira, que o cobria, mas já não importava, algo inundava seu coração, que voltava a bater, e quanto mais próxima a luz ficava, era possível ver que ela vinha de um homem, ao olhar bem, ele percebeu que a luz era o homem, e antes que pudesse pensar mais, Ele, O Homem, já estava de pé em sua frente, com um sorriso no rosto sereno, tudo em volta estava iluminado, mas ele sem entender nada pergunta:
- Quem é você?
- Sou Aquele que você pediu ajuda, sou o mito, a lenda, a verdade, a vida...
- VOCÊ existe então?
- Sou até mais real que você.
- E porque você veio me ajudar? Estou tão sujo, fedido, e tudo isso é culpa minha...
- Porque eu TE AMO, mais do que qualquer outra pessoa já amou, ou vai amar. Eu vim te buscar, quero cuidar de você, limpar seus machucados, curar suas feridas, te dar roupas novas, tira-lo dessas correntes, arrancar a corda de seu pescoço, te dar comida, vamos?
- Mas, eu não consigo andar, meus músculos estão fracos demais, tudo dói...
- Eu te carrego, eu serei suas pernas, seus braços até que tenha forças novamente.
- então eu vo...
E antes que ele pudesse terminar a frase, O Homem já o tomava nos braços, não se importando com o mau cheiro, ou com os vermes que já o cobriam, e caminhava para fora da escuridão, levando-o para a vida, o vento fresco se misturava ao calor da vida, já era possível sentir o cheiro das flores, ouvir o barulho dos mananciais, o cheiro doce e leve dos frutos inundavam suas narinas, ele estava entrando em um maravilhoso jardim, que não se via o fim, altos montes ao fundo, o céu mais azul que já havia visto, algo novo para ele começa a tomar conta de seu corpo, sua alma, ele não sabia ao certo o que era, algo que parecia dar vida a ele, mais tarde veio a saber que era um tal de amor que estava começando a envolve-lo.
Antes que entrasse em um delicioso sono, ele pergunta para o homem, intrigado em saber mais sobre seu salvador:
-Qual seu nome?
- Tenho vários nomes, mas me chame de Jesus, O Cristo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário