quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O TESTEMUNHO.







Talvez nós esperemos que a caminhada com Deus seja indolor, cheia de sorrisos. Pensamos em uma estrada no meio do campo, cheia de árvores em volta, todas floridas na primavera, que enquanto passamos no meio delas, essas docemente sorriem, exalando seu mais doce perfume.
Foi ali, caminhando naqueles corredores brancos, ao lado de minha irmã, que percebi o quanto uma vida com Deus pode ser tantas coisas, menos um passeio na primavera. Enquanto seguia na direção daquele quarto, com meu nariz de palhaço, não conseguia parar de pensar em tudo que aconteceria.
Já se passara alguns meses desde aquele dia, quando minha mãe abriu o envelope e vi as lágrimas escorrendo de seus olhos… ela estava com câncer de mama. Um rapaz recém-saído do ensino médio, com 7 meses de emprego, nunca me sentira tão bem em toda a vida e em alguns segundos, com algumas letras em um papel, algumas poucas palavras, meu chão por alguns instantes desapareceu. Impossível não sentir no mínimo medo. Então acho algo para me apoiar: A Rocha viva, Jesus.
Os dias foram passando, meu pai, com minha mãe nas consultas, eu com minha irmãzinha em casa. Quimioterapia. Dores. Tristeza… Mas o quê? Não era possível entender, de onde vinha tanta garra, tanta força, que a fazia sorrir? Essa força, não vinha dela, não é humana.
Alegria. Sumira o tumor. Festa, com os pés no chão. Algumas semanas, o acharam, ele estava no fígado. Câncer no fígado, agora? Google. Não há mais jeito. Não há operação. Não há médico que cure. Mais Quimioterapia. Mais forças tiradas não se sabe de onde.
Mais um dia comum. O Almoço. Garfo em direção à boca. O pior. Gritos. Minha irmã tinha sido atropelada por um ônibus. Os 2 fêmures fraturados. Perda de carne na tíbia. Mãe em desespero. Eu em oração. Deus no controle.
Hospital público. Tratamento de particular. Prognóstico: 6 meses de internação. Realidade, a que só Deus é capaz de realizar: Em 2 semanas já saíra do hospital. Fisioterapia. Largo o emprego, me agarro a minha mãe e irmã, elas precisam de mim.
Os tratamentos. Minha irmã, milagrosamente se recuperando. Minha mãe, infelizmente sofrendo cada vez mais. Mas inacreditavelmente, ela conseguira ver sua filha a voltar a andar, talvez uma alegria maior que se ela própria tivesse melhorado. Como esse Deus sabe de todas as coisas né?
Hoje, ao olhar para minha irmã, andando ao meu lado, por esse hospital, não consigo esconder as lágrimas. Um milagre vivo ao meu lado, e eu indo encontrar minha mãe numa cama. Chego à porta. Esse caminho nunca durara tanto tempo para mim. Nunca imaginei que ficaria tão hesitante em girar uma maçaneta. Ela reconheceria meu nome? Saberia quem sou eu? Conseguiria me ouvir dizer que a amava? Conseguiria enxergar seus filhos mais uma vez? Uma puxada de ar, um movimento com a mão, alguns passos e estou ao lado de sua cama. Um sorriso, o mais belo que já vi em toda minha vida. Com um esforço sobrenatural, 3 palavras direcionadas a mim: Eu te amo. Uma frase para minha irmã: Seja muito feliz, e mande um beijo pra menina que nós cuidávamos.
Dia seguinte, já é domingo, nem acredito. Os dias passam como se fossem horas, minutos. Minha prima está em meu quarto. Ela não precisa dizer nada, eu já sei. Minha mãe morreu. Abraços. Choro. Algo que não entendo toma meu coração, não pode ser. Paz. A Paz, que excede todo o entendimento, e apenas Deus é capaz de dar. Não importa quem venha me consolar, o consolador já está comigo. Ele cuida de meu coração, chora comigo e seca minhas lágrimas, conhece minha dor, e está aqui para curá-la. Raiva? Não sinto, muito menos de Deus. Por que escrever isto? Talvez você acha tão triste. Sim, é triste. Para que você lembre, que por maior que seja sua dor, Deus está com você. Sei que tudo que passei foi permissão Dele, e que em momento nenhum me desamparou. Não quero viver o que desejo para mim, mas o que O Pai Celestial desejar, e permitir. Em tudo dou Graças. O maior milagre já aconteceu, eu fui feito filho de Deus.”
Jonathas Ferreira
Jonathas é servo do Rei. Trabalha como fotógrafo e designer gráfico e nas horas vagas serve a Deus como o Palhaço Jhon Jhon, além de ser líder de adolescentes em sua congregação
Eu só transformei o testemunho dele em forma de conto. 

Postado originalmente em 

sábado, 13 de agosto de 2011

OS VERDES CAMPOS.



Era possível ouvir o silêncio. O vento docemente afagava as folhas das arvores. As estrelas pareciam ter aparecido em ajuda a eles, mostrando o caminho a seguir em meio à noite. Cada passo uma vitória. Respiração ofegante, olhos espertos. Por mais cansadas que estivessem, as pernas, não vacilavam.
Voltar não era uma opção. Melhor morrer a ver braços e pernas presos a grilhões. A noite não os incomoda. A vontade de serem livres é maior que o medo de serem escravos novamente.
Não há pausa. Sem descanso. Sem brincadeiras. É possível ver a ânsia por liberdade em cada olhar. Palavras não pronunciadas, mas muitas coisas são ditas com simples gestos. Algumas lágrimas precoces, mas será que para eles existe ora errada para chorarem?
A lua exausta resolve se retirar, o Sol vem para cumprir a sua parte, seus longos braços luminosos vão abrindo caminho na densa escuridão. É possível completar aqueles corpos de ébano, tornando-se mais fortes a cada metro mais longe daquele inferno conhecido como senzala.
Ele se destacava, não por seus cabelos brancos, ou sua pela marcada, mas por seu olhar firme como uma rocha, imutável. A imponência não estava em seus 1,70 m de altura, mas em algo que saía de sua alma. Exalava coragem, empenho, suor, amor.
 Já faziam 45 anos, desde aquele dia que mudara sua vida. Uma escolha. Um preço a ser pago. Muitas vidas salvas. Alguns o chamavam de louco, outros de “anjo negro”, mas todos diziam: “Eu não conseguiria fazer o mesmo”.
    Este anônimo herói conhecerá a liberdade no alto de seus 18 anos de idade. Fuga. Rapidez. Livre, enfim. Algo não estava certo. Não chegara aos verdes campos que tanto sonhava em ver, mas sabia que não o encontrariam mais. Uma voz, em seu coração: “VOLTE”. Mas voltar? AGORA? Um desejo: Não voltar. Uma certeza: ele tinha que ajudar seus irmãos. Uma decisão. Hombridade. O encontram perto da fazenda. Nunca souberam ao certo o que ocorrerá
    Açoites. Castigos. Nem uma palavra. Sem arrependimento. De volta a casa. Perguntas, perguntas, e perguntas:
-Por quê?
Uma resposta, apenas uma:
-Por vocês.
Não há nenhum que consiga olha-lo nos olhos. Silêncio, alguns deixam a emoção escorrer em suas faces.
    Hoje, tanto tempo passou. Tantas fugas que planejara, mas ficara. Tantas dividas eternas para com ele. Trabalho cumprido. Ele sim, pode olhar para o passado, não para trás, e dizer: “Valeu a pena”; não sem algumas lágrimas de alegria, satisfação, emoção.
    Suas pernas fraquejam. Não quer parar. Ninguém ousa duvidar de suas forças. Um tombo. De pé. Alguns passos. Outro tombo. De pé novamente. Menos passos. Ao chão. Desta vez não consegue se levantar. Todos à sua volta.
- 18 anos tinha eu quando vi a liberdade pela 1ª vez. Mas sabia Deus que eu ainda não era livre. Voltei, para falar ao coração de vocês, meus irmãos, o que o esperavam. Uma palavra foi dada ao meu coração: “A liberdade será tua, e de teus irmãos, em herança perpetua, pois perseveraste em acreditar em mim, meu Filho.” E eis que agora o Meu Deus me conservou em vida, como disse; 45 anos são passados, desde que falaste estas coisas a mim; e ainda hoje estou tão forte quanto naquele dia. Se hoje vivo é por vocês, então sejam minhas pernas, como fui seus braços por tanto tempo.
    O mais forte o toma nos braços, honrado em poder ajuda-lo. Alguns já podiam ver os lindos verdes campos que ele tanto sonhara. Eram os últimos metros de prisão para este grande homem. Como um filme lembrava-se de cada momento de dor, cada lágrima derramada, por tudo o que havia passado. Já era possível ver o lindo céu, azulzinho em reverência a nosso herói. A cabeça pendia, sem forças. O paraíso estava perto.
- Olhe papai, já consigo ver os campos, as flores, a liberdade...
    Ele permanece quieto por alguns segundos, e com seus olhos fechados, diz:
- Eu posso ver, já vejo, os lindos campos verdes, infindáveis, que lindas árvores, rios, flores, posso sentir o vento fresco, o cheiro da água, o rio de vida que corre por entre eles, sinto a vigor voltar a meu corpo, a vida penetra por minhas narinas tomando conta de cada gota de sangue em mim, e Ele está ali, de braços abertos, as mãos furadas, como havia prometido, a minha espera...
“Livre afinal, livre afinal. Agradeço ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal.”