sábado, 13 de agosto de 2011

OS VERDES CAMPOS.



Era possível ouvir o silêncio. O vento docemente afagava as folhas das arvores. As estrelas pareciam ter aparecido em ajuda a eles, mostrando o caminho a seguir em meio à noite. Cada passo uma vitória. Respiração ofegante, olhos espertos. Por mais cansadas que estivessem, as pernas, não vacilavam.
Voltar não era uma opção. Melhor morrer a ver braços e pernas presos a grilhões. A noite não os incomoda. A vontade de serem livres é maior que o medo de serem escravos novamente.
Não há pausa. Sem descanso. Sem brincadeiras. É possível ver a ânsia por liberdade em cada olhar. Palavras não pronunciadas, mas muitas coisas são ditas com simples gestos. Algumas lágrimas precoces, mas será que para eles existe ora errada para chorarem?
A lua exausta resolve se retirar, o Sol vem para cumprir a sua parte, seus longos braços luminosos vão abrindo caminho na densa escuridão. É possível completar aqueles corpos de ébano, tornando-se mais fortes a cada metro mais longe daquele inferno conhecido como senzala.
Ele se destacava, não por seus cabelos brancos, ou sua pela marcada, mas por seu olhar firme como uma rocha, imutável. A imponência não estava em seus 1,70 m de altura, mas em algo que saía de sua alma. Exalava coragem, empenho, suor, amor.
 Já faziam 45 anos, desde aquele dia que mudara sua vida. Uma escolha. Um preço a ser pago. Muitas vidas salvas. Alguns o chamavam de louco, outros de “anjo negro”, mas todos diziam: “Eu não conseguiria fazer o mesmo”.
    Este anônimo herói conhecerá a liberdade no alto de seus 18 anos de idade. Fuga. Rapidez. Livre, enfim. Algo não estava certo. Não chegara aos verdes campos que tanto sonhava em ver, mas sabia que não o encontrariam mais. Uma voz, em seu coração: “VOLTE”. Mas voltar? AGORA? Um desejo: Não voltar. Uma certeza: ele tinha que ajudar seus irmãos. Uma decisão. Hombridade. O encontram perto da fazenda. Nunca souberam ao certo o que ocorrerá
    Açoites. Castigos. Nem uma palavra. Sem arrependimento. De volta a casa. Perguntas, perguntas, e perguntas:
-Por quê?
Uma resposta, apenas uma:
-Por vocês.
Não há nenhum que consiga olha-lo nos olhos. Silêncio, alguns deixam a emoção escorrer em suas faces.
    Hoje, tanto tempo passou. Tantas fugas que planejara, mas ficara. Tantas dividas eternas para com ele. Trabalho cumprido. Ele sim, pode olhar para o passado, não para trás, e dizer: “Valeu a pena”; não sem algumas lágrimas de alegria, satisfação, emoção.
    Suas pernas fraquejam. Não quer parar. Ninguém ousa duvidar de suas forças. Um tombo. De pé. Alguns passos. Outro tombo. De pé novamente. Menos passos. Ao chão. Desta vez não consegue se levantar. Todos à sua volta.
- 18 anos tinha eu quando vi a liberdade pela 1ª vez. Mas sabia Deus que eu ainda não era livre. Voltei, para falar ao coração de vocês, meus irmãos, o que o esperavam. Uma palavra foi dada ao meu coração: “A liberdade será tua, e de teus irmãos, em herança perpetua, pois perseveraste em acreditar em mim, meu Filho.” E eis que agora o Meu Deus me conservou em vida, como disse; 45 anos são passados, desde que falaste estas coisas a mim; e ainda hoje estou tão forte quanto naquele dia. Se hoje vivo é por vocês, então sejam minhas pernas, como fui seus braços por tanto tempo.
    O mais forte o toma nos braços, honrado em poder ajuda-lo. Alguns já podiam ver os lindos verdes campos que ele tanto sonhara. Eram os últimos metros de prisão para este grande homem. Como um filme lembrava-se de cada momento de dor, cada lágrima derramada, por tudo o que havia passado. Já era possível ver o lindo céu, azulzinho em reverência a nosso herói. A cabeça pendia, sem forças. O paraíso estava perto.
- Olhe papai, já consigo ver os campos, as flores, a liberdade...
    Ele permanece quieto por alguns segundos, e com seus olhos fechados, diz:
- Eu posso ver, já vejo, os lindos campos verdes, infindáveis, que lindas árvores, rios, flores, posso sentir o vento fresco, o cheiro da água, o rio de vida que corre por entre eles, sinto a vigor voltar a meu corpo, a vida penetra por minhas narinas tomando conta de cada gota de sangue em mim, e Ele está ali, de braços abertos, as mãos furadas, como havia prometido, a minha espera...
“Livre afinal, livre afinal. Agradeço ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal.” 

Um comentário:

  1. Querido irmão, achei o conto um pouco confuso para compreender, mas seu conteúdo é bem profundo.
    Muito bem escrito e percebe que é alguém pleitiando a liberdade.
    Abrcs

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