sábado, 17 de setembro de 2011

AS NOITES.


   
    
    O vento gelado cortava as ruas vazias, assobiando sarcasticamente, um palhaço sem graça. A densa neblina colava em suas retinas, tornando-os quase cegos. Eram corpos com a alma apagada.
    Já não sabiam mais há quanto tempo àquela escuridão dominava suas vidas; alguns diziam que 100 anos, outros 150, mas todos concordavam: era uma noite eterna.
    Esta terrível desgraça assolava cidades e mais cidades, países inteiros, talvez todo o mundo, se bem que existia uma antiga lenda que no Norte alguns povos sabiam como invocar aquilo chamado de Sol, um ser misterioso, que provavelmente pairava no céu emanando luz e calor.
    Problemas. Muitos problemas. O frio, de tão intenso, congelava suas almas. A falta de chuva secou toda possibilidade de vida, até a esperança ausente em suas inexpressivas existências. Vazios.
    Viviam escondidos em suas casas, animais acuados. As crianças não iam à escola. Os pais trabalhavam em seus porões, simplesmente para tentar aquecer seus lares e quem sabe seus corações. Arranjar um pouco de comida talvez. Não existiam férias, finais de semana, feriados, aniversário, diversão, alegria.
    Era só mais um dia, melhor dizendo, uma noite comum: o vento soprando, as pessoas apinhadas em seus lares e o trabalho que acontecia embaixo de da terra. Um estranho som começa a chamar a atenção. No início era apenas um leve ruído. Aumentava. Naquela imensidão vazia e silenciosa havia algo diferente. Uma pequena luz no meio da vasta escuridão. Impossível não notar. Ela aproximava-se da rua principal, e única, da cidadela. As janelas tinham 6, 8, 10 olhos abertos e fixos naquele estranho brilho ambulante. Ao se aproximar da entrada foi possível ver os pés e as mãos daquela luz, era um homem, enorme, deveria ter em torno dos seus 1,90, ombros largos, barba e cabelos brancos, andar lento, postura imponente.
    Já está assentado no bar. Um prato de comida. Arroz, feijão, ovo. Tudo muito escasso. Prato vazio. Em 5 minutos a quantidade de pessoas ali passou de -3 para 38,5. Não me pergunte sobre os dados, apenas os aceite.
    Todos desejavam saber de onde vinha aquele misterioso homem, que andava com uma lamparina. Ainda não haviam decidido o que era maior: o medo ou a curiosidade que ele despertava. “Na dúvida não faça nada” pensaram. Pairava certa magia naquele viajante, algo que os fascinava, impedia que simplesmente o ignorassem.
    Uma criança. Garotinha. Corajosa. Alguns passos, uma pausa, outros passos. Está a 1 metro daquele grande e imponente ser. “Posso ver essa luz mais de perto? Ela é tão bonita...”. Silêncio. Ele se vira. A fita no fundo dos olhos. Abre um sorriso. “Claro que pode”. Um anticlímax para tanta tensão.
    Todos se aproximam daquele velho homem de voz grave e suave, encantadora. Percebem agora o ar de serenidade que ele emana. Uma inexplicável paz, e euforia, toma conta de todos ali. Ele sabe o que está acontecendo. Querem saber seu nome, de onde vem, para onde vai, quanto tempo vai ficar...
- Eu venho de muito longe, de terras distantes, além do horizonte, do extremo Norte. Já faz alguns anos que saí do meu lar. Desde então venho caminhando por este mundão, percorrendo caminhos estreitos, enfrentando o vento frio, a escuridão, a solidão, o cansaço, a fome. Conheci pessoas de todos os tipos, raças, cor, credo. Em todos os lugares que estive, e não foram poucos, pude perceber que o mais desejado não era que está terrível noite acabe, mas sim amor, alegria e paz. Não há um ser que não deseje tais coisas. Vivemos infelizes, atormentados, frios. Gerações destruídas. A escuridão tomou conta de seus corações. Brigas. Isolamento. Medo. Rancor. Raiva. Choro. Cada vez assolam mais os povos. Posso ver a tristeza que tomou conta de cada um que está aqui. Não preciso morar aqui para perceber que mal se falam, se olham nos olhos, se conhecem. Os problemas se acumulam e não tem para quem correr, com quem falar. A esperança já se foi a muito tempo, não há razão para viver, vocês apenas sobrevivem. Hoje eu venho oferecer-lhes amor, alegria, e paz. VIDA! Existe algo, alguém, que dar-lhes vida, em abundância. E só esse alguém pode tais coisas. É um tal de Jesus Cristo, aquele que vocês conhecem como o libertador, das antigas lendas, aquelas que acham ser mentiras. Eu sou prova viva. Venho da terra que existe luz, vida, aquela que acham não existir mais. Hoje vocês tem a chance de começarem a viver de verdade. Permitam que Jesus os abrace, e mostre todo amor que Ele tem por vocês. Na cruz, Ele mostrou que quando não há mais solução, Ele É A esperança, a vida que surge da morte. Deixem a Luz de Cristo brilhar em seus corações.  Entreguem suas vidas a Ele, se arrependam de seus erros, e Ele os fara novos.
    Ao olhar em sua volta todos estão chorando, copiosamente, ajoelhados, implorando por essa mudança, por esse tal de Jesus que pode dar-lhes vida finalmente. O velho homem se levanta, ora com cada um ali, chora com eles, sente as dores de cada vida, e se encaminha para a porta, não sem antes dizer:
-É necessário que eu vá, há outros que precisam desta palavra, mas nunca deixem esse fogo apagar dentro de vocês...
-Mas qual é o seu nome – indagam alguns curiosos por saber quem os anunciara tantas maravilhas.
-O meu nome não importa, o que realmente é importante são as mudanças que aconteceram hoje aqui...
Ao partirem para porta, em busca de mais alguma palavra sábia, podem contemplar aquele velho senhor, caminhando no sentido oposto ao que chegara, e a sua frente um lindo nascer do Sol, segundo a lenda, o mais belo já visto em todos os séculos. 

3 comentários:

  1. Mew, que sensacional o/
    Eu super li o texto e fiquei imaginando minha vida e um lindo teatro, sim, um LINDO TEATRO!
    Parabéns =)
    Bjones

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  2. Adorei o teu estilo de texto!
    Passarei sempre por aqui!

    Fica na paz! =)

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