quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

UMA MANHÃ NUBLADA.

    Já havia tempo que só havia choro em sua alma. Suas lágrimas secaram, mas seu coração soluçava dia após dia. Um inverno sem fim. Não havia vida. Não havia uma voz, uma canção. Não havia nada. A dor consumia até seus ossos. Vazio. Era tudo o que ele tinha. Um grande vazio, de ideias, emoções, sonhos, prazeres.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

NÃO EXISTE AMOR EM SP




São Paulo – SP, dia 7 de janeiro de 2012. Saio do metrô, estação santa Cecília. Vou em direção a faculdade presbiteriana Mackenzie. São 7 da manhã. Caminho normalmente. Sol um tanto quanto tímido. Belas calçadas. Belos ternos. Belas bolsas Victor Hugo. Belos carros. Belos restaurantes. Árvores. Continuo a caminhar. Penso na matrícula que estou para fazer. Penso no café da manhã. Penso no livro que me espera em casa. Penso no vento fresco que bate em meu rosto. Penso em pequenezas da vida.
    Não há o que reclamar. Tênis novo no pé. Um ticket de metrô no bolso, alguns trocados na carteira. Um belo hospital chega mais perto, provavelmente particular. Lindos vitrais. Lindos portais. Tijolinhos a vista. Só que há alguma coisa destoa da paisagem. Há algo ali, que não deveria estar. Aproximo-me, é, realmente, não estava enganado. Uma mulher, deitada no chão, cabelos desgrenhados, coberta, com alguma blusa velha. Não tem forças para me pedir dinheiro, apenas vejo a falta de vida em seus olhos.  Alguns passos, há um homem, situação tão desesperadora quanto a vítima, quer dizer, mulher por quem acabara de passar. Seus olhos gritam, não menos que sua garganta, que clama por dinheiro, alguns trocados, para comer, ou talvez, tomar uma pinga, mais barata que pães, e que esquenta sua alma vazia e fria. “Não tenho dinheiro” minto eu. Um hipócrita medroso. “Deus te abençoe” é o que recebo em troca. Continuo meu caminho. Inconformado. Na região das “gente diferenciadas”, de seus ternos armanis, sua bolsas louis vuitton e seu nikes no pé, temos ali, alguém, atrapalhando o trafego, no passeio público, sem ninguém que nem ao menos olhe na sua cara. “É assim mesmo”.
    Fazer o quê né? O quê? Qualquer, menos continuar nesse meu frio caminhar indiferente. Lembro. Um mercado a poucos metros. A solução.  6 pães, um pouco de mortadela. Vou pagar, sem peso de gastar. E não vou gastar, é até que barato, pouco pra mim, muito pra ele. Não gastei 5 minutos. Nem 5 reais. Uma nota de 5. Volta troco. Sacolinha nas mãos. Saio, com o sentimento de missão cumprida. Quer dizer, penso em sair. Porque ao olhar para fora preferia ter visto um bixo, um leão, um cachorro bravo, um vespeiro, qualquer coisa, menos aquilo. Um homem, um ser humano, como eu, você, seus pais, filhos, irmãos, amigos, marido, esposa, debruçado, atrás de um tesouro em meio ao lixo. Não consigo dar mais de 3 passos. Engulo o choro, entrego a sacolinha com algo tão simples, tão pouco, mas vale mais que ouro para aquele homem. E continuo meu caminho. Com algumas lágrimas. Menos do que imaginei. Mais do que estou acostumado.
    Passam algumas horas. Volto ao mesmo local. Não há mais nenhum deles ali. Nem a mulher, nem os homens. Devem tê-los expulsados, nem que seja só com seus olhares, ou com a falta deles. Não fez muita diferença para a maioria das pessoas que ali passavam ou que passarão.  Não quero te chocar, te emocionar. Isso não faz mais diferença. Isso não muda merda nenhuma. Só lembre que eles não são animais, que você tem muito mais do que precisa. Lembre que  moradores de rua sentem fome, mais que você; tem emoções, mais judiadas que as suas; passam frio, como você nunca passará; vivem em constante perigo, como você nunca saberá.  Vivemos num mundo cão. Tratamos bixo como se fossem homens, tratamos homens como se fossem bixos. Durma uma noite na rua, fique 3 dias sem comer, sem tomar banho, sem ter com quem conversar. Então vá pedir dinheiro para comer, talvez você se importe, ou não, já que voltara para sua casinha, tomara um banho quente, comerá uma comidinha, entrara na internet, usara seu iphone, ouvira uma música no seu ipad, talvez de uma volta de carro, e irá dormir na sua cama confortável. É, realmente, que vida dura nós temos. Difissilíma, fácil é dormir sobre o luar, com a companhia dos rejeitados e marginalizados,  na aventura de não saber se terá o que comer. Continuemos vivendo na aparência, voltados para nosso próprio ego hipertrofiado. É muito fácil ignorar. É comodo não ajudarmos. Talvez sejamos todos sádicos que nos alimentamos das almas atacadas por nossa indiferença todos os dias. Deus tenha misericórdia de nós, somos uma nação perdida.
    
   Tenho que concordar com Criolo, não existe amor em SP...
“São Paulo é um buquê
Buquês são flores mortas
Num lindo arranjo
Arranjo lindo feito pra você
Não existe amor em SP
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu”

(trecho de “não existe amor em SP” do rapper Criolo”)