quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

UMA MANHÃ NUBLADA.

    Já havia tempo que só havia choro em sua alma. Suas lágrimas secaram, mas seu coração soluçava dia após dia. Um inverno sem fim. Não havia vida. Não havia uma voz, uma canção. Não havia nada. A dor consumia até seus ossos. Vazio. Era tudo o que ele tinha. Um grande vazio, de ideias, emoções, sonhos, prazeres.

         Mais um dia. A luta vem. Ele cai. Uma, duas, três vezes... 7,8,9. Mais um nocaute. Ele perdeu as contas de quantas vezes beijou a lona no último mês. Não têm forças para correr. O bicho já está comendo. Angústia. Anestesia.
    Não era religioso. Já fora a igreja, servia a Deus, mas parecia que Este o havia abandonado. A Igreja não lhe estendeu a mão, não ouviu seu choro, nem enxugou suas lágrimas. Ali no escuro do seu quarto não havia pastores, nem discursos bonitos como o amor é cor-de-rosa e fofinho. Na hora do aperto não tinha pra onde ir. Na hora do aperto não havia teologia da prosperidade, nem doutrina presbiteriana, batista, metodista, pentecostal, que o ajudasse. Não se encontra auxílio onde não há vida.
    Só ele conhecia suas dores, suas feridas na alma. Ninguém o entedia. Um incompreendido frustrado e sozinho. Todos lhe viraram as costas e o apontaram o dedo. Isto era no que cria.
    Um dia deitado meditando, procurando respostas, pra essa grande piração, AIDS, câncer, solidão. Sua mente não se desligava mais. Nem ligava. Ficava no limbo, vegetando a espera da morte. Ele então ora. Uma simples oração. Não era fé, era desespero. Não foi confiança em seu Deus, mas a única saída. Depois de tantos meses sem falar com O Senhor ainda lembrava o “em nome de Jesus, amém”.
    Uma resposta. Na verdade ele nunca descobrirá se ouvirá mesmo aquela voz com seus ouvidos ou com o coração apenas. “Levanta desta cama filhão, e vem me encontrar na beira da lagoa”. Ele hesita. Um pulo. Bermuda, tênis, camiseta, moletom. A noite era fria, a neblina cobria a cidade.
    Vai a pé. 1 km. Está ali, na beira de uma lagoa. Não há estrelas. Não há um vento que fala com ele. Só há garoa. Fina e constante. Já são 5:50. Ele tenta orar. Pra quê formalidades? Ele começa é a conversar, talvez fosse mais um desabafo, com Deus. Conta suas angustias. Seus medos, traumas, frustrações. E dá um berro mudo: Você não estava lá, eu estava sozinho, você me abandonou. Não há lágrimas. Ele não está emocionado. Somente com raiva.
    Ele espera uma resposta. Trovões, raios, relâmpagos. Um redemoinho pelo menos. Nada. Apenas silêncio. A expressão carregada revela sua frustração. Pensa em ir embora. Resolve ficar. Quer ver o dia nascer, faz tanto tempo que não vê o Sol se levantando no horizonte. Ele espera. Espera. Espera. E nada. A garoa não para. As nuvens não se abrem. Não há um raio de luz cortando os céus. Apenas o cinza. A chuva aperta. Ele já não sabe se chora ou se é a água que cai. Uma última, tola, súplica: “Pai, porquê até o Sol você tirou de mim?”
    Ele fica ali, sentado no banco, com a chuva a cair, sem pássaros a cantar, sem sol a raiar, sem vento a uivar. Ele fica ali, remoendo o porquê de nem o Sol Deus o deixa ter mais. Olhos fechados. Um estalo. Uma voz. A mesma voz de algumas horas atrás. Não há dúvida, foi no fundo do coração. Ele sorri. Um sorriso maroto, de canto da boca. Continua com os olhos fechados, a aproveitar a chuva que lhe lava a alma. O sol não nasceu. O dia não clareou, mas ele se alegrou. Naquela manhã ele soube:
Não é porque as nuvens encobrem o Sol e não o vemos que Ele não está ali, a raiar, como todos os dias.  

7 comentários:

  1. alguém ouviu resgate nas últimas horas?
    :D Muito bom o texto Calebe, meio cedo né..mas muito bom.
    abraços.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Lindo. Achei que fosse acabar com o sol raiando e o Salomão do Reggae dizendo que nessa manha ele viu o sol, Jesus e o reggae nascer hahaha Muito bom ;)

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  4. querido irmão , gostei muito dessa meditação!
    Muito boa!

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Curti o trecho da banda resgate no texto... muito bom calebe, palavras sempre edificantes!

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