domingo, 5 de agosto de 2012

O CAMINHAR



     Ele corre. Corre como se sua vida dependesse disso. Depende. Ele não consegue parar. Nunca. Não existe meio termo, ou ele corre, ou regride. Ele só para quando caí. É aqui que nos encontramos. Está caído, no escuro. O túnel parece não ter fim. Machucou-se na queda. Ele sabia que deveria evitar aquele caminho, mas fingiu que nada sabia. Ele fez tudo errado, a culpa era dele, e isso o consumia, lentamente.

 Estava difícil para levantar. Talvez nem quisesse realmente sair dali, poderia piorar, ia doer, ia cansar. Está frio. Sozinho, ele se sente só. Fome não sabe do que. Sede de uma água que não é de beber. Ele pensa em chorar, mas quem se importaria? Ele pensa em gritar, mas quem ouviria? Ele pensa em morrer, mas nunca foi tão covarde para tanto.  
Levanta! Ele está delirando, só pode ser, ouvindo vozes. Levanta! De novo? Como assim? Vamos lá, estou com você, levanta! Ele desiste, se rende, entra no delírio.
- Levantar? Não tem mais volta, eu já errei demais.
- Quem disse que é demais? Quem disse que não há como consertar?
- Eu digo, cada passo dado foi um erro.
- Eu posso consertar seu erro, tudo será diferente.
-Tudo é diferente e nada realmente mudou, sou o mesmo que errou a pouco atrás, como pode dizer que tudo será diferente?
- Pois você não correrá com suas forças, não irá pelos seus caminhos.
Choro, muito choro. PARE! Não me prometa o que não pode cumprir, já me prometeram o mesmo, e olhe só, estou aonde estou.
- Não posso cumprir?  Você só está vivo por minha causa. Você nunca confiou em mim, e vem dizer que não posso cumprir? Levanta, e deixe que eu te guie. Veja se suas pernas já não estão mais fortes. Vamos para casa.
Só Ele poderia saber que tudo o que o corredor queria era conseguir chegar em casa. Esta tem sido sua motivação, sua vontade, mas ele já duvidava se algum dia iria realmente conseguir chegar.
Mãos no chão. Primeira tentativa. Ele não consegue. Novamente. Esta de pé. O joelho ainda dói, mas suas pernas estão estranhamente mais forte. Ele fecha os olhos. Não serve nada no escuro. Começa uma prece, sem hora para terminar. Alguns passos inseguros. Ele começa a ganhar confiança, não em si, mas nessa força que ele sabe muito bem de onde vem.
Uma luz ao fim do túnel. Agora ele consegue a ver. Corre. Cada vez mais rápido. A luz está cada vez mais perto. Já sente o vento fresco batendo em seu rosto. A voz não some. Fica mais forte: Eu disse que podia confiar em mim, meu filho.
Ele já não comanda mais suas pernas. A solidão ficou para trás. O frio vai sumindo. O medo é menor que a esperança. Um sorriso aparece. Ele disse que estava arrependido e tudo foi diferente.
O túnel termina. Um caminho duro pela frente. Estreito, com espinhos, pedras, tudo que o faria desistir. Mas não, ele não vai desistir mais. Tantas mudanças. Mesmo com dificuldades, é tudo tão belo ao seu redor. A dor sempre vem, mas a paisagem tão linda o lembra que o final é ainda melhor. Ele sabe que não corre mais a toa, ele está voltando para casa, vai encontrar seu Pai.
Voltou a ter sonhos. Voltou a sorrir, mesmo com o rosto ainda molhado pelas lágrimas. Ele olha para trás e não consegue acreditar o quanto tudo mudou. Se contasse alguém toda sua história o chamariam de louco. E ele é isso um louco. Como todos aqueles que vivem a loucura da vida nova ganha numa cruz. 
Ao fim ele, poderá, sentado em sua cadeira de balanço, olhando para o horizonte, dizer: Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé.

3 comentários:

  1. Lindo texto! Falou exatamente o que precisava ouvir!

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  2. Lágrimas rolaram aqui. Muito lindo o texto Calebe, Deus continue a te inspirar!
    Bbjones

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    Respostas
    1. Gostei muito, principalmente do versículo final!
      Nossa vida ás vezes imita essa estória.
      que tenhamos essa fé de caminhar e até ao fim e Combater o bom combate, teminar a corrida e guardar a fé!Abraços

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