sábado, 17 de novembro de 2012

A SAUDADE




     Ele já caminhou alguns quilômetros. Está em uma pequena cidade. Anda lentamente pelas ruelas. Os paralelepípedos o lembram de um tempo bom. As janelas o observam.

     Chega à pracinha da Igreja. Uma rápida olhada por fora, mas sem muita pressa. Tudo parece meio lento por ali. As pessoas parecem ter a mesma idade há 50 anos.

     Mais 15 minutos de caminhada e encontra um local para passar a noite. Casinha simples, branquinha. Uma senhorinha aluga o quarto baratinho. Uma mesa, uma cadeira e uma escrivaninha.

     Ele ajeita sua única bagagem, sua velha mochila guerreira. Já passam das 5 da tarde. Aproveita para tomar um banho quente. Há quanto tempo ele não sabia o que era um chuveiro com água que não fosse gelada? Tudo muito bom, se ele não começasse a sentir um aperto no peito.

     Deitado em uma cama macia, com lençóis limpos, ele cochila tranquilamente. A fome o acorda. Ela e o cheirinho de feijão no fogo que há tanto tempo ele não sentia. Também tem um arrozzinho e uma carninha pra janta, informa a meiga velhinha, praticamente a Dona Benta.

     Ele janta e vai deitar. Algo o incomoda. Depois de tantos anos na estrada, não se lembrava o que era aquela sensação, aquele incomodo. A dor fica forte, uma pressão seu tórax, o deixa sem ar. É diferente de tudo que já sentira. O incomodava muito. Parecia que iria lhe tirar o sono, mas o cansaço o derruba após 15 minutos de luta.

     7 horas da manhã. Ele acorda com o canto do galo e o cheiro de café sendo coado. Troca-se e levanta. Café passado, bolo quentinho, pão e manteiga. Faz tempo que não recebo hóspedes, informa a velhinha. Ele come, se farta, conta suas historias, ouve uns causos, dá risadas, e o aperto aumenta.



     Ele fecha sua mochila, arruma a cama e se prepara para ir. Paga sua adorável anfitriã, a agradece por ter feito muito mais que ter lhe dado apenas um quarto para dormir. Ela fala para ele não se preocupar, gosta que seus visitantes se sintam em casa. Casa. Essa palavra bate como uma pedra em sua mente. Casa, casa, casa. É a única coisa que consegue pensar.

     Nem percebe, já está para sair da cidade novamente, e só consegue pensar em casa. A dor aumenta, parece que o coração vai sair pela boca. Ele senta na beira da estrada e chora. A dor que sente é maior que poderia sentir. É saudade. Saudade de sua casa.

     Ele percorreu países, conheceu prazeres inimagináveis, viveu aventuras homéricas, beijou belas mulheres, bebeu bons vinhos, ouviu lindas histórias, viu os mais esplendidos lugares, mas desejava algo que não encontrava. Desejava algo que ele parecia já ter experimentado. Ele desejava voltar para casa, somente não sabia. Mas agora ele sabe, e já está a caminhar, com a saudade no peito, mas com a certeza que encontrou o caminho que o leva de volta pra onde sempre desejou.

“Se descubro em mim um desejo que nenhuma experiência deste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo.”
C.S. Lewis

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