sábado, 20 de abril de 2013

UM SALTO PARA A VIDA.




     Uma multidão se aglomerara. O sangue ainda quente escorria pela calçada. Um vermelho vivo naquele cinza meio morto. O defunto atrapalhava o passeio público, mas era a atração da cidade, pelo menos do bairro.

     Todos queriam ver a tragédia. Como diz, notícia ruim corre rápido, e uma andorinha só não faz verão. Porém a última frase nada tem a ver com o caso. Mas acho-a interessante. Bem melhor que “bandido bom é bandido morto”, mas sobre esta eu deixo pra discutir depois, em respeito ao morto.

     O presunto era um homem misterioso. Andava pela cidade sempre a sorrir. Nunca foi visto sem o largo sorriso na face. Não sabiam muito sobre ele. Uns diziam ser italiano, outros alemão, e ainda havia os que juravam que era só um gaúcho. Era rico, mas não trabalhava. “Herança” especulavam uns. “Contrabando” falavam os invejosos. Possuía um amigo. Um mendigo que dormia na frente do prédio, perto de onde José (o nome do de cujus) estava agora.

     A polícia chegou. Bateram nuns três moleques negros sem camisa, “pra eles ficarem espertos”. Isolaram o local. “todo mundo pra traz, isto é um morto, quem nunca tinha visto, se acalma, um dia chega sua vez” gritou um poliça.

     Os jornalistas rondavam a cena, atrás de uma carne fresca para atacar. Perguntavam alguns se sabiam algo, mas todos só mexericavam. Até que se lembraram do amigo de José, o velho mendigo.

- E aí mendi, sabe por que ele pulou lá de cima?
- Sei.
- E aí?
- E aí, o que?
- Você sabe por que ele se jogou do 23º andar, não sabe?
- Sei
- Então conta!
- O quê?
- Porque ele pulou, cacete!
- Ele voou para vida.
- Pra vida? Ele tá morto!
- Nunca esteve tão vivo.
- Mas ele morreu.
- Exatamente. Ele era desgraçadamente feliz, tão feliz, que era triste.
- E o que há de ruim em ser feliz?
- Nada, desde que não seja a única coisa que sinta em toda a vida.
- Não entendo mais nada.
- Ele nunca chorou na vida.
- E daí?
- Ele nunca sentiu dor. Nem uma dorzinha sequer.
- E o que isso tem a ver com se jogar do último andar?
- Ta vendo o sorriso no rosto, sincero, de verdade, como nunca antes?
- Aham
- Sabe quais foram as últimas palavras dele, estirado no chão, jorrando sangue, com esta merda de sorriso na cara?
- Não.
- “Doeu!”

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