sábado, 30 de novembro de 2013

DÉJÀ VU



“Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”
Karl Marx, em "O 18 de Brumário de Luis Bonaparte"


     4:00 a.m. Não fechou os olhos a noite toda. Não há telhas nem vigas para contar. Um teto branco sobre a cabeça deixa tudo mais agoniante. Não há nem mais o tic-tac do relógio, agora digital. Tudo esta quieto. A madrugada é agradável, fresca, com um vento frio, nada que uma camiseta e uma xicara de café não resolvam.

     Ele não para de olhar o teto branco. Algumas lembranças. Umas boas, outras nem tanto. O passado insiste em se fazer presente, tirar-lhe o sono. Ele olha ao lado. Ela está ali. Deitada. Serena. Tranquila. Quase um anjo, pensou. Afaga seu cabelo com as pontas dos dedos, ela sorri, docemente, inconscientemente. Tudo anda tão pesado ultimamente.
     Levanta. Desiste de se enganar. Sempre soube que não dormiria esta noite. Passos lentos. Os corredores nunca pareceram tão estreitos. Fotos na parede. Lembra-se do começo. Ele só desejava uma nova história. Chega à cozinha. Acende um cigarro. Voltou a fumar. Voltou a ter insônia. Voltou a chorar sozinho de madrugada. Voltou a ser o velho homem que tanto odiou.
     Pisa num caco de vidro. Pedaço de copo. Resto da briga da noite passada. Olha para mão enfaixada. Ainda dói. Talvez seja a cicatriz de tantos anos já. Não tem mais forças. Será esta sua sina: estragar tudo, novamente?
     O Café está quase pronto. O Sol ainda não raiou, mas a escuridão já não é total. Ele se lembra de quando fugiu. Fuga que no final o trouxe para os braços daquela que dorme. Por que nos tornamos o que tanto temíamos? Por que foi preciso chegar até aqui? Não tínhamos prometido que seria diferente? Ela continua a dormir e ele sem resposta.
     Volta pro quarto. Passado e presente se confundem.Ele cambaleia. Os olhos marejados. Um nó na garganta. As mesmas perguntas que se fizera há tantos anos. O mesmo choro doído dela. O mesmo sentimento de fim da linha. Mas não tinha mudado? Aprendido? Era um novo cara?
     Troca de roupa. Põe uma jaqueta. Calças. Um par de tênis. Vê aquele sorriso singelo, bobo, solto na cama, perdido naquele rosto que tanto o tem evitado.
Desce as escadas correndo. Não olha pra trás. Balbucia algo, uma prece, um pedido de ajuda. Ele não dá conta sozinho. Talvez falte coragem. Está com as chaves na mão. A porta a sua frente. São 6:00. Déjà Vu. Suas mãos gelam.

Uma voz doce e sonolenta, rasga o ar pesado, o faz parar:

-Aonde você vai?

Ele hesita. Respira fundo. Olha no fundo daqueles olhinhos tão pequenos de tanto sono. Sem conseguir mentir, confessa, aliviado:

-Só vou buscar pão.

Ela sorri.

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