domingo, 24 de novembro de 2013

VENTOU



     Algumas batidas no teclado. Um gole de café. Dois goles. Esfrega os olhos. Digita mais e mais. Reclina um pouco a cadeira enquanto analisa o que escreveu. Apaga e escreve de novo. Mais dois goles de café. Café é bom. Afrouxa um pouco mais a gravata. Fita o monitor como se sua vida dependesse do que esta ali.

     É sexta-feira. Pouco mais de 19h. Da janela do escritório ele pode ver que já há alguma movimentação. É um final de tarde quente. Horário de verão. Ainda há Sol, apesar de algumas nuvens, ao longe. Quase todos já se foram do trabalho.

     Ele não desgruda o olho daquele maldito computador. Às vezes pisca. Só. Seus ombros doem. Carregam o peso de todo um futuro. Seus dedos estralam ao digitar. A cabeça pesa uma tonelada. Sua boca esta seca. Enfim, mais uma sexta-feira no trabalho.

     O sino dos ventos toca. Ele chega a se mexer na cadeira. Alonga o pescoço, tentando se concentrar do susto. Mais algumas linhas escritas, o sino toca novamente. Aquele som. Engole seco. Não queria lembrar. O som é constante. O vento sopra sem parar.

     Não há quase mais ninguém na rua. O Sol se foi. Não aguenta. Desliga o monitor, se levanta, pega o terno, e... A cadeira atrás de si range. Obviamente que Ela estaria ali.

- Aonde pensa que vai?

- Olha, serio, não to afim de papo agora...

- Agora é assim? Como não tá afim de papo? O que te apressa?

- Eu só tenho que ir. Simplesmente. O vento está soprando de novo.

- EXATAMENTE! Você não se lembra da última vez?

- Dá pra esquecer? Foi ele que me trouxe pra cá.

- E mesmo assim você quer ir? Vai doer, machucar... Você vai chorar, vai se cansar...

Um suspiro - Se assim for necessário...

- Mas, nós fizemos tantos planos juntos, está tudo certo, você está se destacando, mais alguns anos, poucos, e estará lá em cima, do jeitinho que a gente imaginou!

- Eu não disse que é fácil fazer o que eu preciso fazer...

- Então não faça! Mais um pulo no escuro? Você nunca gostou disso, perder o controle da situação...

- Bom, eu vou indo, já está começando a chover.

- Não! Fica! Vai ter bolo, e segurança, e facilidades, e tudo que você sempre sonhou, e mais...

- Comodidad, cala a boca. Você já não pode me prender, bitch! O Vento me chama...
     A chuva começou. O vento está passando. Ele não perde tempo e entra no meio. Começa a correr. De sapato mesmo. Não importa. Vai doer de qualquer jeito. Ele sabe. Sorri aliviado. Pois não há nada que ele queria mais que ser guiado pelo vento, que ele não sabe de onde vem, nem pra onde irá.

     A noite será longa, fria e molhada. Seu corpo vai pedir pra parar. Lágrimas se misturarão a chuva. Em alguns momentos se sentirá sozinho, ouvindo somente o barulho das gotas e da sola do sapato batendo no chão. Antes do amanhecer a noite se tornará mais escura. Mas uma hora, mesmo que longínqua, a chuva cessará e o dia irá raiar. E não há nada mais bonito que ver o Sol nascer com uma brisa suave lhe beijando o rosto...

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