quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

AS LUZES DA CIDADE






“Existe uma maré nos casos dos homens a qual,
levando à inundação, nos encabeça à fortuna.
Mas omitidos, a viagem das vidas deles
está restrita em sombras e misérias.
Em um mar tão cheio estamos agora a flutuar.
E nós devemos pegar a correnteza quando nos for útil,
ou perder as aventuras á nossa frente."
Shakespeare, em “Julio César”

     É madrugada. Cidade dorme. Ele não, é um desperdício dormir a noite. Caminha lentamente pela rua. Suas pernas não estão respondendo muito bem às suas vontades. Está ventando, mas ele não usa blusa, só uma camiseta preta, calças jeans e um par de tênis surrados. Mãos devidamente enfiadas no bolso, para completar a mise-em-scène.
     Suas caminhadas durante a hora da coruja são frequentes. É silencioso, calmo, lembra um pedido de tempo, a “figuinhas” das brincadeiras de criança, quando todos podiam voltar a serem amigos, descansando, mesmo que por alguns instantes.
     Suas mãos estão cortadas. Quebrara um copo há poucos dias. Ainda dói quando está frio. As olheiras profundas mostram os dias sem dormir direito. Os pés cansados vacilam. A barba por fazer mostra como ele, bom, mostra como ele é um homem elegante.
     Apesar de tudo, o que ele gosta da noite são as luzes. Talvez por serem pequenos contrapontos na escuridão, do modo que a noite é para o caos diário. Pequenos momentos de esperança em meio às trevas que nos engolem.
     Assim ele caminha, observando as luzes da cidade e permitindo que elas a observem. As luzes da rua, amarelas, brancas, queimadas. As luzes do letreiro, vermelho, azul, neon. Luzes dos carros, comuns ou xênon. As luzes da polícia, das ambulâncias. Dos apartamentos, janela aberta ou por uma frestinha. Dos bares. Das igrejas. As vezes, até luzes de natal. E claro, as estrelas, luzes em seu estado mais puro.
     As luzes da cidade o atraem, como se uma mosca fosse. Caminha tonto, cambaleante, de luz em luz, sem se satisfazer. Sempre há a esperança do dia em que chegar na luz que será suficiente. A mais bela e quente. Que o fara não desgrudar os olhos, porém sem os cansar. Que o livrará de uma vez por todas das sombras que o atormentam.
     Está quase a desistir desta madrugada. Poucas luzes interessantes. Muito comuns, monótonas. Resolve voltar para casa. Desce uma longa rua, quando avista no céu, acima dos prédios do horizonte, uma luz estranhamente forte. Tem um brilho peculiar. Parece queimar, mas sem se consumir em brasas.
     É a luz mais diferente que já viu. Parece flutuar acima de um oceano invisível. Muito longe, mas tão próxima. Estica a mão para toca-la, e sente o calor irradiando das pontas dos dedos para o resto do corpo. Sente que pode alcança-la, mas parece escapar de seus dedos. Ele não consegue mais não a olhar. Ele a deseja, necessita desta estranha luz, que parece lhe chamar pelo nome, mesmo sem palavras.

     Ele ainda não percebeu, mas está a andar, não mais cambaleante, atrás da forte luz no horizonte. Ensaia começar a correr. Continua a caminhar, simplesmente seguindo a luz que parece lhe guiar. Tem a singular sensação que o lumeeiro no céu estava lhe esperando, para leva-lo ao desconhecido. Ele não se importa, pois mesmo com medo, não conseguirá mais viver sem a luz mais bela que já virá em toda a sua vida.

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